quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Homem, um animal (Freud fala de Darwin)

Na apresentação da tradução brasileira (editora Hemus, 1974) de “A Origem do Homem e a Seleção Sexual”, de Charles Darwin (autor, como vocês sabem, do mais afamado e anterior “A Origem das Espécies”, publicado originalmente em 1859), é feita uma citação de Sigmund Freud, escrita em 1917, a respeito do impacto das pesquisas do naturalista britânico:

“No de...curso da civilização, o homem adquiriu uma posição de predomínio sobre as criaturas companheiras do reino animal; mas, não contente com tal supremacia, pôs-se a cavar um abismo entre a sua natureza e a dos animais. Negou-lhes a posse da razão, atribuiu a si mesmo uma alma imortal e pretendeu arrogar-se afoitamente uma origem divina; isto lhe permitiu romper o elo de comunhão entre si e o reino animal... Todos sabem muito bem que faz pouco mais de meio século as pesquisas de Charles Darwin e dos seus colaboradores e precursores puseram fim a esta presunção do homem. O homem não é um ser diferente dos animais ou superior a eles; ele próprio descende dos animais e possui afinidades mais estreita a alguma espécie e menos a outra. Os progressos que o homem realizou não conseguiram anular as provas da sua afinidade com essas espécies, tanto do ponto de vista da estrutura física como também das disposições psíquicas. Isto representa um golpe ulterior deferido contra o seu narcisismo, o ‘golpe biológico’.”


Complementos avulsos

*Óbvio que o termo “homem” se refere a espécie humana, os humanos de ambos os gêneros. No “machocentrismo” ainda em vigor, o gênero masculino define todas as coisas...

**O que liga Deus à humildade, como alega um amigo, a partir do que ele entendeu do meu comentário? Quase sempre, essa palavra designa um ser antropomórfico, tipo um velho barbudo suscetível a ira, ao qual se deve amar sobre todas as coisas ou morrer no inferno... Se concebes Deus como aquilo que é incognoscível pela mente animal humana, aí para mim está tudo bem; poderia chamar isso também de “ o grande mistério”, “o intransponível” etc. O mais, entendo como especulações, inclusive as científicas; nesse nível, tudo são tentativas de entendimento; o problema é definir que “com toda certeza” existe tal e tal coisa no “além”; que as coisas são assim e assado, frito, cozido, ou seja, pontificações, seja aquelas vindas das igrejas, do espiritismo, do candomblé, do budismo tibetabno, da Seicho-No-Ie, da física quântica, da exobiologia etc.

***Eu acho que ler as obras originais é muito bom, porque ali está o pensamento do cara em estado bruto. Comentadores, biógrafos podem ser um baita auxílio no entendimento. Lendo Darwin, se vê muito isso. É um escrito datado, cheio dos rebusques da época (mesmo que seja uma tradução). Mas é um esforço danado para transmitir, por inúmeros exemplos e referências (algumas, até, jocosas [pra usar um termo arcaico]), uma ideia que hoje pode parecer “evidente”. Entretanto, não dá para esquecer: há muita gente que desconhece ou rejeita o evolucionismo, mantendo-se aderido àquela ideia bíblica do criacionismo, ou seja, levam ao pé da letra o que são histórias lendárias e mitos da Idade do Bronze... E em nome disso alguns se tornam fundamentalistas, irados e, no ápice, genocidas.

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