Citações
De “Eu, primata: por que somos como somos”, de Frans de Waal – zoólogo holandês, radicado nos EUA, dá aulas na no Departamento de Psicologia da Universidade Emory e é pesquisador no Centro Nacional Yerkes de Pesquisa sobre Primatas em Atlanta:
I
O antigo provérbio romano Homo homini lupus - “o homem é o lobo do homem” - capta essa visão associal que ainda hoje inspira o direito, a economia e a ciência política. O problema não é apenas que esse ditado nos reporesenta erroneamente; ele também insulta um dos mais gregários e leias cooperadores do reino animal. Tão leal, que nossos ancestrais sabiamente o domesticaram. Os lobos sobr...evivem derrubando presas maiores do que eles, animais como renas e alces, e fazem isso com trabalho em equipe. Ao voltarem da caça, regurgitam a carne para as mães lactantes, os filhos e às vezes os velhos e doentes que ficaram para trás. Como as torcidas cantante do futebol., reforçam a união da matilha uivando em conjunto antes e depois da caçada. A competição existe, mas os lobos não podem se dar ao luxo de permitir que ela siga o seu curso. Lealdade e confiança vêm primeiro. Comportamento que solapam o alicerce da cooperação são reprimidos para impedir a erosão da harmonia, a base da sobrevivência. Um lobo que permitisse a prevalência de seus limitados interesses individuais logo se veria sozinho caçando ratos.
(p.266)
II
Cada época oferece à humanidade sua própria distinção. Nós nos consideramos especiais e estamos sempre em busca da confirmação dessa singularidade. Talvez a primeira delas tenha sido a definição de homem, por Platão, como a única criatura sem pelos que anda com duas pernas. Isso pareceu absolutamente correto até que Diógenes soltou uma galinha depenada no salão da conferência e ironizou:... “Eis o homem de Platão”. Dali por diante, a definição de Platão inclui “e que tem unhas largas”.
Muito tempo depois, o fabrico de ferramentas foi considerado tão especial que ensejou a publicação de um livro intitulado Man, the tool-maker [Homem, o fabricante de ferramentas]. Essa definição perdurou até a descoberta de chimpanzés selvagens que faziam esponjas com folhas mascadas ou desfolhavam um ramo de árvore para usar com varas. Corvos já foram vistos curvando um pedaço de arame para fazer gancho e pescar a comida dentro de garrafas. Lá se foi o “homem, o fabricante de ferramentas”. A próxima candidata foi a linguagem, inicialmente definida como comunicação simbólica. Mas, quando os linguistas tiveram notícia de que grandes primatas não humanos possuem habilidades de linguagem de sinais, perceberam que o único modo de manter fora esses intrusos era abandonar a definição de comunicação simbólica e enfatizar a sintaxe. O lugar especial da humanidade é marcado por definições abandonadas e traves de gol móveis.
(p.222)
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