terça-feira, 5 de novembro de 2013

A religião analisada por um zoólogo...

Segue-se uma citação um tanto longa – mas muito instigante (acho eu) – para se pensar a religião por um viés inusitado: um subproduto da estruturação biológica do Homo sapiens, “a única espécie animal de primata bípede do gênero Homo ainda viva”, na definição na Wikipédia.

Para apreciá-la, talvez se necessite “descer do pedestal da criação” e nos ver e post...ar enquanto mais um – embora singular em diversos aspectos – componente do planeta; um dos seus seres vivos, surgido num longuíssimo processo evolutivo, que nos trouxe até os dias de hoje em companhia com quase incontáveis de outras espécies de animais – afora todo o vastíssimo reino vegetal e de outros seres vivos, tais como fungos e bactérias.

Os parágrafos foram retirados do já mencionado livro “O Macaco Nu”, de Desmond Morris (edição da Círculo do Livro – tradução para o português de Hermano Neves, do original “The Naked Ape”, publicado em 1967).

Morris é zoólogo, nascido em 1928 na Inglaterra, com doutorado pela Universidade de Oxford e várias condecorações acadêmicas; autor de muitos livros sobre comportamento animal, onde se inclui, em especial, o ser humano, num escrutínio mais afeito à etologia (comportamento animal) e menos etnológico (culturas humanas). Morris é colocado como uma referência na sociobiologia, campo de estudos que venho desenvolvendo muitas simpatias, embora careça de mais conhecimentos (mal li obras de Edward Wilson, por exemplo).

Uma das coisas mais importante que acredito Morris tenha feito através de seus livros, estudos, documentários, palestras, enfim, sua existência intelectual criativa, foi sempre voltar a nos lembrar que

"Apesar das nossas ideias grandiosas e das nossas sublimes vaidades pessoais, continuamos a ser humildes animais, sujeitos a todas as leis básicas do comportamento animal."

Como está na apresentação da edição de onde retirei as citações,

o humano, como espécie, "não é dono e senhor da natureza, mas simplesmente um dos seus filhos".

"Tendemos a sofrer de uma estranha condescendência (...), convencidos de que somos entes especiais, acima de qualquer regulação biológica. Mas não é assim. Houve muitas espécies formidáveis que se extinguiram no passado, e não somos exceção. (...) temos de nos encarar demorada e friamente como exemplares biológicos e compreender alguma coisa sobre as nossas limitação [enquanto um ramo dos primatas sem cauda, os 'macacos pelados']."

Mas agora, sim, vai a citação sobre a religião. Está lá no capítulo V, “Agressão”, entre as páginas 155 e 159:

(...)

Já que falamos em religião, talvez valha a pena observar mais de perto essa estranha forma de comportamento animal, O assunto não é fácil, mas, como zoólogo, devemos fazer o possível para observar o que se passa na verdade, em vez de nos determos ouvindo o que deveria ter acontecido. Se o fizermos, teremos de forçosamente de concluir que, em sentido comportamental, as atividades religiosas consistem na reunião de grandes grupos de pessoas que executam longas e repetidas exibições de submissão, no intuito de apaziguar o indivíduo dominante. Esse indivíduo dominador assume muitas formas nos diferentes tipos de cultura, mas conserva sempre um fator comum: um poder enorme. Às vezes, assume a forma de um animal de outra espécie, ou uma versão maios ou menos idealizada. Outras vezes, é retratado como um membro sensato e idoso da nossa própria espécie. Pode ainda tomar um caráter mais abstrato e receber o nome de “o Estado”, ou outros equivalentes. As respostas submissas que lhe são oferecidas podem consistir em fechar os olhos, baixar a cabeça, por as mãos em atitude de súplica, ajoelhar, beijar o solo, ou mesmo chegar à prostração extrema, frequentemente acompanhada de vocalizações de lamento ou de cânticos. Se esses atos de submissão são bem sucedidos, o indivíduo dominante acalma-se. Como mantém enormes poderes, as cerimônias de apaziguamento têm de ser praticadas a intervalos regulares e frequentes, para impedir que o dominador volte a sentir-se irado. Em regra, mas nem sempre, o indivíduo dominando é chamada um “deus”.

Como nenhum desses deuses existe de numa forma corpórea, é o caso de se perguntar por que forma inventados. Para encontrar a resposta, temos de regressar às nossas origens ancestrais. Antes de nos termos tornados caçadores cooperantes, devemos ter vivido em grupos sociais semelhantes aos que ainda hoje se veem em outras espécies de macacos e símios. Nos casos típicos, cada grupo é dominado por um só macho. Este é ao mesmo tempo patrão e senhor todo-poderoso e cada membro do grupo tem de apaziguá-lo ou sofrer as consequências. O chefe é também o membro mais ativo na proteção do grupo contra os perigos exteriores e no ajuste de contendas entre os restantes membros. Durante do a vida, cada membro do grupo gira à volta do animal dominante. O seu papel de detentor do poder dá-lhe uma posição semelhante a de um deus. Voltando agora para os nossos antepassados mais próximos, torna-se evidente que, com o desenvolvimento do espírito cooperativo, tão fundamental para a caça em grupo, a aplicação da autoridade do indivíduo dominante teve de ser muito limitada, para conservar a lealdade ativa (e não passiva) dos restantes membros. Era preciso que estes últimos quisessem ajudar o chefe, em vez de se limitarem a teme-lo. Para isso, o chefe tinha de ser cada vez mais como “um dos outros”. O antigo macaco tirano teve de desaparecer, para ser substituído por um chefe macaco pelado, mais tolerante e cooperante. Tratava-se dum passo essencial para a organização de um novo tipo de “entreajuda”, mas criou um problema. O domínio total do membro número 1 do grupo foi substituído por um domínio qualificado, de forma que aquele não podia impor uma lealdade cega. Embora essa mudança tenha sido vital para o nosso sistema social, deixou, no entanto, uma lacuna. Devido aos nossos antecedentes, conservamos a necessidade de uma figura todo-poderosa que mantivesse o grupo sob um certo ‘controle’, e a vaga foi preenchida com a invenção de um deus. Dessa forma, a influência da figura-deus inventada podia funcionar como uma força complementar da influência progressivamente decrescente do chefe do grupo.

À primeira vista, surpreende como a religião tem tido tanto sucesso, mas o seu enorme apenas nos dá apenas a medida da força da nossa tendência biológica fundamental, herdada diretamente dos macacos e símios nossos antepassados, para nos submetermos a um membro do grupo dominador e todo-poderoso. Por esse motivo, a religião tem-se revelado extremamente valiosa como mecanismo de coesão social, e é mesmo possível que a nossa espécie não tivesse progredido tanto sem ela, dado o conjunto especial das circunstâncias que acompanharam a nossa evolução. A religião conduziu a diversos subprodutos bizarros, tal como a crença numa “outra vida”, em que encontraríamos, finalmente, as figuras-deuses. Pelas razões já mencionadas, os deuses eram inevitavelmente impedidos de nos aparecerem na vida atual, mas essa falta podia ser corrigida depois da vida. Para facilitar as coisas, desenvolveram-se as práticas mais estranhas em relação ao destino dos nossos corpos quando morremos. Se vamos finalmente encontrar os nossos senhores dominantes e todo-poderosos, devemos ir bem preparados para o acontecimento, o que justifica todos os requintes das cerimônias fúnebres.

A religião também originou muito sofrimento e miséria desnecessários, sempre que se formalizou exageradamente a sua aplicação e sempre que os “assistentes” profissionais das figuras-deuses não resistiram à tentação de lhes pedir emprestado um bocadinho do poder divino, para usar em proveito próprio. Contudo, apesar de a história da religião ser muito confusa, trata-se de um aspecto da nossa vida social sem o qual não podemos passar. Sempre que se torna inaceitável, é rejeitada, de maneira calma ou violenta, mas surge imediatamente sob nova forma, talvez cuidadosamente mascarada, mas contendo todos os antigos elementos básicos. Muito simplesmente, precisamos “acreditar em alguma coisa”. Só nos mantemos unidos e controlados se temos uma crença comum. Nesse sentido, poderia afirmar-se que qualquer crença serve, desde que seja suficientemente poderosa; mas isso não é exatamente verdadeiro. A crença tem de ser impressionante e tem de ser visivelmente impressionante. A nossa natureza comum exige a execução e a participação em rituais de grupo requintados. Se se eliminam a “pompa e circunstância”, deixa-se uma terrível lacuna cultural e a doutrinação não atingirá o profundo nível emocional que lhe é indispensável. Acontece ainda que certos tipos de crença são mais prejudiciais e estupidificantes do que outros, podendo mesmo desviar uma comunidade para tipos de comportamentos rígidos que impeçam o respectivo desenvolvimento qualitativo. Como espécies, somos um animal predominantemente inteligente e explorador, e todas as crenças baseadas nesse fato são extremamente benéficas. A crença na validade da aquisição de conhecimentos e da compreensão científica [não confundir com verdadeira, única, permanente] do mundo em que vivemos, da criação e apreciação dos fenômenos estéticos em todas as suas formas e do alargamento e aprofundamento do campo das nossas experiências da vida cotidiana vai se tornando rapidamente a “religião” do nosso tempo. A experimentação e a compreensão são as nossas figuras-deuses bastante abstratas, cuja ira será desencadeada pela ignorância e pela estupidez. As nossas escolas e universidades são centros de treino religioso e as nossa bibliotecas, museus, galerias de arte, teatros, salas de concerto e estádios esportivos são locais de culto comum. Em casa praticamos o culto com nossos livros, jornais, revistas, rádios e televisões. De certa maneira, continuamos a acreditar no pós-vida, visto que uma parte da recompensa obtida com nossos trabalhos criadores é exatamente o sentido de que continuaremos, através deles, a “viver” depois de mortos. Como todas as religiões, essa também tem os seus perigos, mas se, como parece, necessitamos de ter uma religião, a nossa parece a mais adequada às qualidades biológicas particulares à nossa espécie. A adoção dessa religião por uma maioria crescente da população do mundo pode ser uma compensadora e tranquilizadora fonte de otimismo que se opõe ao pessimismo expresso anteriormente, a propósito do nosso futuro imediato e da sobrevivência da espécie.

*Sim, muito a ver com Dawkins, que além de darwinista e militante pela análise da religião de forma objetiva e não supervalorativa, tem livros excelentes de divulgação científica. Um cara importante nesse “mundo assombrado pelos demônios”, como diria o saudoso Carl Sagan, com tantas crendices e fórmulas escapistas, acabando por limitar ainda mais a mente humana, supostamente na tentativa de “expandi-la para o além”.

**E num outro comentário que estou lendo, já faz um tempo, coisas do filósofo Daniel Dennett. E está aqui na pilha, entre os primeiros, o seu livro “Quebrando o Encanto – A Religião como Fenômeno Natural”.Conforme diz na resenha, Denett quer "discutir a crença humana nas religiões a partir de uma questão fundamental: por que o homem crê na existência de seres superiores e lhes confere o estatuto de divindade?" E embora ele use conceitos "transbiológicos" como “memes” (Dawkins difundiu a ideia), afirma que "esse comportamento [da crença religiosa] pode ser explicado a partir do processo de evolução e seleção natural". O "quebrar o encanto" tem a ver com algo que pode ser lastimado: a perda do estado de beatitude, de êxtase e confiança que se sente a partir da adesão à fé, e, por outro lado, a “quebra” do domínio que se pode exercer ao oferecer (via igrejas de todos os naipes) tal "droga mental" às pessoas. Enfim, resumindo, não é fácil largar da cachaça! Hehe!!

***As análise de caras como o Dennett valem para todas as “linhas” religiosas. Me considero agnóstico. Mas além do gosto antropológico por todas as manifestações humanas, me inclino, hoje, para o panteísmo eisteneano, a “religiosidade cósmica” que ele falava (e que muitos fazem interpretações completamente descabidas), nada a ver com figurações antropomórficas “tipo Deus” ou deuses ou forças ou espíritos etc. Cada uma na sua, mas sem poupar crítica em nome do respeito a religião, ao “sagrado”; deveria ser objeto de análises como qualquer outro tema: política, cinema, dietética etc.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

“O assassino de Deus estava a bordo”

Um comentário sobre a expedição de Charles Darwin no navio Beagle, nos anos 30 do século XIX, a partir de uma reportagem


Semana passada, ainda em minhas leituras sobre o naturalista Charles Darwin, achei uma matéria na Superinteressante de junho de 2007, alusiva aos 150 anos da teoria da evolução.

No parágrafo de abertura, os jornalistas Alexandre Versignassi e Rodrigo Rezende escrevem:

“E Charles Darwin criou o homem. Ou, pelo menos, inventou o que hoje nós conhecemos como homem. Antes dele, éramos o centro do Universo, a obra sublime da criação. Agora somos apenas mais uma entre milhões e milhões de espécies, um bicho de origem nada especial.”

Uma molécula está na base do surgimento de toda a vida orgânica no planeta Terra. É um processo tão longo, que fica difícil ser pensado por nossa mente limitada retroceder. Quem consegue imaginar uma escala de 4 bilhões de anos, quando, estima-se, a formação desta molécula mal iniciou? O big-bang ficaria ainda mais inacessível para nossa pobre cognição: 13,7 bilhões de anos.

Algo foi decisivo para Darwin desenvolver as suas observações e raciocínios. Ele - “o assassino de Deus” - viajou por quase cinco anos no navio Beagle, cujo objetivo primeiro era mapear a costa da Patagônia, custeado pelo governo britânico. O capitão Robert FitzRoy teria escolhido Darwin, naquela altura um rapaz de 22 anos, pelo formato do seu nariz: “sinalizava profundidade de caráter”, cita-se na reportagem da Super, como palavras do coordenador da embarcação e da expedição.

A “morte de Deus” decretada pelo evolucionismo proposto por Darwin, exposto em livros como “A Origem das espécies” e “A Origem do homem”, tem ligações com um arquipélago, que ele visitou e analisou em pormenores a partir de 1835, quando o navio atracou no “inferno”, outra expressão da capitão Fitz Roy para aquelas paragens em meio ao Oceano Pacífico, a mil quilômetros da costa do Equador:

“O gatilho para esse pensamento veio quando ele percebeu diferenças instigantes entre os bicos de uma espécie de passarinho das Galápagos, os tentilhões. Em uma ilha eles tinham bicos grossos, bons para quebrar nozes. Em outra, longos e finos, ideais para arranjar comida em frestas. Darwin imaginou que aquelas aves deviam ter se adaptado de algum jeito. Por mágica? Não: por um processo de seleção que levou gerações. Em ambas as ilhas teriam nascido pássaros de bico fino e de bico grosso. Naquela onde havia nozes para comer, só estes últimos teriam sobrevivido.”

Versignasse e Rezende arrematam: “A partir desse raciocínio simples, nascia um monstro” – “a ideia mais poderosa de todos os tempos”, está dito no sumário.

“Darwin descobriu como a vida pode existir sem a intervenção divina”, sintetiza-se no título na capa desta Superinteressante. Deus estava dispensado e, na verdade, estava atrapalhava o entendimento da existência da vida. Entretanto, alguns ainda choram a perda, insistindo no mito patriarcal – do pai que tudo criou nos mais mínimos detalhes, e vigia ferozmente, como um leão o faz com suas fêmeas e filhotes na savana africana.

Mapas de uma viagem fascinante feita por um homem extraordinário da Era Vitoriana

Algo que achei muito bacana, com um certo layout “retrô”, é o site “AboutDarwin.com”, com TODOS os mapas da viagem do naturalista Charles Darwin a bordo do navio Beagle, custeado pelo império britânico para analisar a costa da Patagônia nos anos 30 do século XIX, mas que acabou sendo, como vocês sabem, uma viagem de pesquisa fundamental para o desenvolvimento da teoria evolucionista, hoje hegemônica – embora criacionistas insistam em seus dogmas de impossível comprovação, baseando-se em escritos da Idade do Bronze, interpretados de forma literal e não como histórias lendárias e apologéticas.

Aí está:

http://www.aboutdarwin.com/voyage/voyage01.html

Todo o site é interessantíssimo*. Fiquei imaginando eu, um piá, com uma coisas dessas para ficar “brincando”. Santo Cristo! Como teria gostado! Assim como gostei da enciclopédia que o meu pai comprava por fascículo, “O Mundo em que Vivemos” – pensando hoje, uma das coisas mais importante para mim e meus irmãos abandonarem explicações mais místico-religiosas (afeitas a minha mãe devota), para se enfronhar na busca de conhecimentos menos dogmáticos e mais práticos.

Os “britanófilos”, como o Rafa “Bala” Amorim e Alexandre Fox poderão se deliciar com fotos interessantíssimas de locais que fazem referência a vida, aos estudos e homenagens a Darwin em Londres, Downe, Cambrige, Shrewsbury etc.

http://www.aboutdarwin.com/pictures/pictures_01.html

Há, como sempre digo, muita fascinação na abordagem científica. Entretanto, também há um apelo para buscarmos avidamente o “sobrenatural”, carentes que somos, enquanto espécie humana, pela atávica sensação de solidão cósmica e fragilidade existencial. Como mariposas, frequentemente nos chocamos contra a luz sedutora, às vezes matando para sempre esta nesga cognitiva que resiste ao entorpecimento aquecido pela promessas de companhia e proteção transcendentais. A biografia dolorida de Darwin adulto demonstra muito bem o que é uma lenta saída do útero mágico para o frio polar da “vida como ela é”. Graças que o caminho já foi feito e podemos dispensar o drama de matar deus em nossos corações.


*Os materiais e referências usados no “AboutDarwin.com” envolvem instituições como a Royal Society (Londres) e a Cambridge University. Sobre quem desenvolveu o site, está dito: “This website was created by me, David Leff. I am an amateur scholar of the History of Science, with a focus on scientific developments during the Victorian era (around 1835 to 1900).” Anoto isso para reforçar o que diz Oliver Sacks em "Diário de Oaxaca": muitas vezes os "amantes da ciência", por seu interesse genuíno, conseguem ir mais longe na busca de "revelações". Sasks manifesta o seu "mal-estar em relação aos meios oficiais e ultracompetitivos da ciência contemporânea", que deturpam muito o sentido da busca do conhecimento, tornando um ambiente de vaidades cretinas, dinheiro, corrupções e facadas nas costas.

**Os viajantes do século XIX são mesmo fascinantes. Diários de expedições no geral são muito bons – a gente vai viajando junto! Darwin teria se inspirado em Humboldt. Aqui mesmo em Santa Cruz, tivemos a visita de um viajante, menos famoso mundialmente – embora fosse amigo de Humboldt –, mas igualmente observador, que registrou coisas muito interessantes no passado da região: Avé-Lallemant, médico, também alemão, e que foi financiado diretamente por D. Pedro II em suas excursões pelo Brasil (morou no Rio de Janeiro).

Aliás, as narrativas de Lallemant (“Viagem pela Província do Rio Grande do Sul”, 1858) serviram de base para um romance que se passa aqui no município: “A Valsa da Medusa”, de Valesca de Assis (que vem a ser esposa do escritor mais afamado, Luiz Antônio de Assis Brasil, notável por seus romance históricos sobre o RS).

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Revistas interessantes - comportamento animal

Entre várias, duas revistas brasileiras bastante lidas publicam seguidamente matérias sobre o comportamento animal. Falo da Superinteressante e a National Geographic Brasil, ambas da editora Abril.

A Super (como é conhecida) possui um arquivo temático (Canais, no site da revista) “Mundo Animal” (não vi, mas bem que os humanos, enquanto uma das espécies de grandes primatas – “o macaco nu”, como disse o zoólogo Desmond Morris já no título do seu best-seller). Vale uma boa olhada:

http://super.abril.com.br/mundo-animal/

Da NG vou destacar uma reportagem muito bacana (textos, gráficos, fotos), na edição de agosto de 2013, muito bacana sobre leões que vivem no Parque Nacional do Serengeti, na Tanzânia.

Nas páginas 56/57 é dito assim:

“Os tigres são solitários. Idem para as onças-pardas. Leopardos não têm interesse em se associar com outros de sua espécie. O leão é o único felino social. Vive em coalizões cujos tamanho e dinâmica são definidos por um intricado equilíbrio de vantagens e desvantagens evolutivas.

E por que o comportamento social, inexistente em outros felinos, adquiriu tanta importância para o leão? É uma adaptação necessária para a caça de presas de grande porte, como os gnus? Facilita a proteção dos filhotes pequenos? Surgiu das características circunstanciais das disputas por territórios? À medida que se delinearam os detalhes da sociabilidade leonina, sobretudo nos últimos 40 anos, muitas das revelações cruciais vieram de estudos realizados no Serengeti.”

E as perguntas acima não caberiam também para os humanos? Por que vivemos em grupo? Como as relações entre os indivíduos se dá numa perspectiva zoológica, digamos assim, que considere existir um longuíssimo processo evolutivo, do qual alguns supõe termos escapado ou, mais radical ainda, estarmos alheios, como “imagem e semelhança” de um deus criador, que montou o mundo com tudo pronto em uma semana e nos deu tudo para dominarmos para todo e sempre?

Há os que, não acreditando em criacionismo, acreditam numa independência total do ser humano das contingências biológicas, tendo nós superado totalmente outros seres do ecossistema planetário, caso dos nossos “primos” gorilas, chipanzés e bonobos. De alguma forma, “endeusam” o ser humano, mesmo que sejam “ateus de carteirinha” (ou “materialistas”). Cara como Steven Pinker teriam muito a contestar com argumentos poderosos...

Certo, mas voltemos à matéria da NG. Segue o link:

http://viajeaqui.abril.com.br/materias/leao-serengeti-tanzania-africa-felinos-sociais

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A importância relativa dos nossos amados livros

Para não esquecer que há coisas bem anteriores, muito mais fundamentais para a existência humana do que a leitura:

Recebi de uma colega uma artigo que falava das novas tecnologia e hábitos de leitura, especialmente com a chegada da informática e de dispositivos como e-readers, palms e tablets. Muito bacana o texto (http://biblioo.info/o-livro-e-o-leitor/). Nos coloca uma linha histórica. E aí a gente percebe que poderemos nos sentir nostálgicos em relação (por um lado) as brochuras e (por outro) os e-readers, assim como monges copistas ou filósofos antigos provavelmente sentiram-se nostálgicos em relação aos seus amados manuscritos (por um lado) e (por outro) o novo formato e popularização das "plataformas de leitura" derivadas da impressão inaugurada por Gutenberg no século XIII...

Viajando mais um pouco: E se a gente pensar na história do ser humano, ou do Homo sapiens, que vai aos milhões de anos se considerarmos a evolução da espécie desde o Australopitecus (poderíamos retroceder ainda mais), se pode dizer que a relação com materiais escritos ou, mesmo, os desenhos nas paredes de cavernas, vamos até uns 30 mil anos. Considerando a escrita em placas de cerâmica, madeira, couro, papiros e papel, aí é algo ainda mais curto: talvez sete mil anos atrás. Há 10 mil anos a agricultura e a domesticação de animais iniciou pra valer, segundo os estudos arqueológicos. Até ali, fomos, por 200 mil anos, povos caçadores-coletores, usando-se de nossa estrutura cérebro-corporal para sobreviver e desenvolver culturas -- línguas, normas, tecnologias para a sobrevivência/convívio. Ou seja, numa escala maior de tempo, a nossa relação com a leitura – um subproduto, provavelmente, derivado do potencial humano para a localização e decifração de padrões, fundamental para nossa sobrevivência física enquanto um ramo dos primatas –, é um piscar de olhos...

Pois é. Parece muito tempo, mas livros são um objeto muuuuito novo na trajetória humana. Por longo, longo, longuíssimo período nos viramos com a oralidade, com a transmissão boca-a-boca (literalmente) e por outros artefatos para nos comunicar, registar e expressar nossas vidas. Na escala de tempo, biológica e socialmente falando, enquanto humanos, fomos 99% do tempo ágrafos... E de onde estamos, em meio a estantes enormes de pesados livros e a infinidade espantosa de textos acessíveis via internet, não é fácil nem tranquilo perceber objetivamente a importância relativamente pequena da escrita, da leitura, e, consequentemente, dos nossos amados/sagrados livros... Entretanto, com certeza a escrita é algo revolucionário, como bem disse Carl Sagan ("O mundo assombrado por demônios") e uma habilidade indispensável para sobreviver no mundo contemporâneo. Mas até o seu surgimento da escrita, inúmeras revoluções evolutivas fundamentais ocorreram bem antes, sem as quais, estaríamos ainda mais próximos dos nossos primos chipanzés e bonobos – seres cuja inteligência, capacidade de expressão e organização social não são nada desprezíveis; na verdade, se assemelham muitos conosco, já que compartilhamos a mesma origem animal; mínimos detalhes em nossa composição genética nos alçaram, no processo evolutivo, a uma condição sui generis entre os primatas.

Tudo isso, me desculpem a xaropada, deriva especialmente de, vejam... LIVROS! que estou lendo aos poucos, até porque têm desajustado várias de minhas "tradicionais" concepções. É o caso de "Eu, primata", de Frans Wall, e "O macaco nu", de Desmond Morris, ambos zoólogos e especialista renomadíssimos em etologia, que, simplificadamente, é o estudo do comportamento animal. Entram neste time outros caras, caso do "formigólogo" Edward Osborne (que pode ser considerado fundador da sociobiologia) e o psicólogo e linguista Steven Pinker, além de caras como o jornalista Cristopher Hitchens e outro biólogo, o geneticista - enfant terrible das religiões - Richard Dawkins.

***Sobre o termo "enfant...", a Wikipédia registra que " Enfant terrible ("criança terrível") é um termo francês para designar uma criança que é muito inocente ao ponto de dizer coisas embaraçosas aos adultos, em especial aos pais. O Webster's Dictionary também define um enfant terrible como uma pessoa que geralmente tem sucesso e que é fortemente não ortodoxo, inovador ou de vanguarda.

Somos animais - não mais nem menos do que animais...

“Acima de tudo, deve-se salientar que não há nada de insultante em olhar as pessoas como animais. Afinal de contas, SOMOS animais. O Homo sapiens é uma espécie de primata, um fenômeno biológico dominado por regras biológicas, como qualquer outra espécie. A natureza humana não é mais do que um tipo particular de natureza animal. De acordo, a esp...écie humana é um animal extraordinário; mas todas as outras espécies também são animais extraordinários, cada uma à sua maneira, e o observador científico de homens poderá trazer muitas revelações novas ao estudo dos assuntos humanos se conseguir conservar essa atitude básica de humildade evolucionária.”

Aí está, no parágrafo final da introdução de “Manwatching – A field guide to human behaviour” (traduzido no Brasil como “Você – Um estudo objetivo do comportamento humano” ”, editora Círculo do Livro S.A., São Paulo, 1977), do zoólogo britânico Desmond Morris (autor do mais afamado “O Macaco Nu”). Uma perspectiva que tem me empolgado. Primeiro, porque nos “baixa a bola” – não somos mais (nem menos) do que animais. Uma perspectiva zoológiaca ao invés de antropológica (e/ou antropocêntrica) – ou seja, nós, animais, vertebrados, mamíferos, primatas, nos vendo como... animais, e não como algum ser que está acima biologia, “O HOMEM” – em letras maiúsculas e entre aspas, para ressaltar nossa auto-magnificência –, como se estivéssemos fora da condição de ser biológico; como se fôssemos anjos, querubins ou outras figuras míticas – seres que viveriam pairando além de toda a história astrofísica e do longíssimo e complexo processo evolutivo na Terra, o qual Charles Darwin começou a esboçar, reforçando-se cada vez mais pelos conhecimentos trazidos pela arqueologia, paleontologia, genética, das profundezas das células e, até, das partículas subatômicas.

Isso poderia também nos falar dos limites de nossos poderes – o poder de pensar, inclusive. Talvez aí esteja porque imaginamos ETs como humanoides ou, ao menos, na forma de algum tipo de animal. Simplesmente não temos capacidades cognitivas para lidar com outras possibilidades de vida ou inteligência. Apenas montamos o mundo como nossos cérebros conseguem operar – assim como uma criança de cinco anos, em 1970 (é o meu caso), imaginava que as vozes e músicas do rádio eram produzidas por minúsculas pessoas dentro do aparelho receptor (aquela caixinha mágica, com botões, ponteiro, numerações, luzes etc.)... São os limites de compreensão, de elaboração mental própria da infância – limites que continuam existindo, em outras medidas e formas, mesmo agora, quando já somos adultos.

Não é nada fácil vencer esse antropocentrismo, essa autoidolatria humana, esse sentido de que somos o centro de tudo, do universo. Difícil, talvez, porque está na nossa própria base genética, como um mecanismo de preservação e reprodução da espécie humana.

Eis o que me suscitou a citação acima.

Fala Frans!

Citações

De “Eu, primata: por que somos como somos”, de Frans de Waal – zoólogo holandês, radicado nos EUA, dá aulas na no Departamento de Psicologia da Universidade Emory e é pesquisador no Centro Nacional Yerkes de Pesquisa sobre Primatas em Atlanta:
I

O antigo provérbio romano Homo homini lupus - “o homem é o lobo do homem” - capta essa visão associal que ainda hoje inspira o direito, a economia e a ciência política. O problema não é apenas que esse ditado nos reporesenta erroneamente; ele também insulta um dos mais gregários e leias cooperadores do reino animal. Tão leal, que nossos ancestrais sabiamente o domesticaram. Os lobos sobr...evivem derrubando presas maiores do que eles, animais como renas e alces, e fazem isso com trabalho em equipe. Ao voltarem da caça, regurgitam a carne para as mães lactantes, os filhos e às vezes os velhos e doentes que ficaram para trás. Como as torcidas cantante do futebol., reforçam a união da matilha uivando em conjunto antes e depois da caçada. A competição existe, mas os lobos não podem se dar ao luxo de permitir que ela siga o seu curso. Lealdade e confiança vêm primeiro. Comportamento que solapam o alicerce da cooperação são reprimidos para impedir a erosão da harmonia, a base da sobrevivência. Um lobo que permitisse a prevalência de seus limitados interesses individuais logo se veria sozinho caçando ratos.

(p.266)

II

Cada época oferece à humanidade sua própria distinção. Nós nos consideramos especiais e estamos sempre em busca da confirmação dessa singularidade. Talvez a primeira delas tenha sido a definição de homem, por Platão, como a única criatura sem pelos que anda com duas pernas. Isso pareceu absolutamente correto até que Diógenes soltou uma galinha depenada no salão da conferência e ironizou:... “Eis o homem de Platão”. Dali por diante, a definição de Platão inclui “e que tem unhas largas”.

Muito tempo depois, o fabrico de ferramentas foi considerado tão especial que ensejou a publicação de um livro intitulado Man, the tool-maker [Homem, o fabricante de ferramentas]. Essa definição perdurou até a descoberta de chimpanzés selvagens que faziam esponjas com folhas mascadas ou desfolhavam um ramo de árvore para usar com varas. Corvos já foram vistos curvando um pedaço de arame para fazer gancho e pescar a comida dentro de garrafas. Lá se foi o “homem, o fabricante de ferramentas”. A próxima candidata foi a linguagem, inicialmente definida como comunicação simbólica. Mas, quando os linguistas tiveram notícia de que grandes primatas não humanos possuem habilidades de linguagem de sinais, perceberam que o único modo de manter fora esses intrusos era abandonar a definição de comunicação simbólica e enfatizar a sintaxe. O lugar especial da humanidade é marcado por definições abandonadas e traves de gol móveis.

(p.222)