sexta-feira, 25 de outubro de 2013

“O assassino de Deus estava a bordo”

Um comentário sobre a expedição de Charles Darwin no navio Beagle, nos anos 30 do século XIX, a partir de uma reportagem


Semana passada, ainda em minhas leituras sobre o naturalista Charles Darwin, achei uma matéria na Superinteressante de junho de 2007, alusiva aos 150 anos da teoria da evolução.

No parágrafo de abertura, os jornalistas Alexandre Versignassi e Rodrigo Rezende escrevem:

“E Charles Darwin criou o homem. Ou, pelo menos, inventou o que hoje nós conhecemos como homem. Antes dele, éramos o centro do Universo, a obra sublime da criação. Agora somos apenas mais uma entre milhões e milhões de espécies, um bicho de origem nada especial.”

Uma molécula está na base do surgimento de toda a vida orgânica no planeta Terra. É um processo tão longo, que fica difícil ser pensado por nossa mente limitada retroceder. Quem consegue imaginar uma escala de 4 bilhões de anos, quando, estima-se, a formação desta molécula mal iniciou? O big-bang ficaria ainda mais inacessível para nossa pobre cognição: 13,7 bilhões de anos.

Algo foi decisivo para Darwin desenvolver as suas observações e raciocínios. Ele - “o assassino de Deus” - viajou por quase cinco anos no navio Beagle, cujo objetivo primeiro era mapear a costa da Patagônia, custeado pelo governo britânico. O capitão Robert FitzRoy teria escolhido Darwin, naquela altura um rapaz de 22 anos, pelo formato do seu nariz: “sinalizava profundidade de caráter”, cita-se na reportagem da Super, como palavras do coordenador da embarcação e da expedição.

A “morte de Deus” decretada pelo evolucionismo proposto por Darwin, exposto em livros como “A Origem das espécies” e “A Origem do homem”, tem ligações com um arquipélago, que ele visitou e analisou em pormenores a partir de 1835, quando o navio atracou no “inferno”, outra expressão da capitão Fitz Roy para aquelas paragens em meio ao Oceano Pacífico, a mil quilômetros da costa do Equador:

“O gatilho para esse pensamento veio quando ele percebeu diferenças instigantes entre os bicos de uma espécie de passarinho das Galápagos, os tentilhões. Em uma ilha eles tinham bicos grossos, bons para quebrar nozes. Em outra, longos e finos, ideais para arranjar comida em frestas. Darwin imaginou que aquelas aves deviam ter se adaptado de algum jeito. Por mágica? Não: por um processo de seleção que levou gerações. Em ambas as ilhas teriam nascido pássaros de bico fino e de bico grosso. Naquela onde havia nozes para comer, só estes últimos teriam sobrevivido.”

Versignasse e Rezende arrematam: “A partir desse raciocínio simples, nascia um monstro” – “a ideia mais poderosa de todos os tempos”, está dito no sumário.

“Darwin descobriu como a vida pode existir sem a intervenção divina”, sintetiza-se no título na capa desta Superinteressante. Deus estava dispensado e, na verdade, estava atrapalhava o entendimento da existência da vida. Entretanto, alguns ainda choram a perda, insistindo no mito patriarcal – do pai que tudo criou nos mais mínimos detalhes, e vigia ferozmente, como um leão o faz com suas fêmeas e filhotes na savana africana.

Mapas de uma viagem fascinante feita por um homem extraordinário da Era Vitoriana

Algo que achei muito bacana, com um certo layout “retrô”, é o site “AboutDarwin.com”, com TODOS os mapas da viagem do naturalista Charles Darwin a bordo do navio Beagle, custeado pelo império britânico para analisar a costa da Patagônia nos anos 30 do século XIX, mas que acabou sendo, como vocês sabem, uma viagem de pesquisa fundamental para o desenvolvimento da teoria evolucionista, hoje hegemônica – embora criacionistas insistam em seus dogmas de impossível comprovação, baseando-se em escritos da Idade do Bronze, interpretados de forma literal e não como histórias lendárias e apologéticas.

Aí está:

http://www.aboutdarwin.com/voyage/voyage01.html

Todo o site é interessantíssimo*. Fiquei imaginando eu, um piá, com uma coisas dessas para ficar “brincando”. Santo Cristo! Como teria gostado! Assim como gostei da enciclopédia que o meu pai comprava por fascículo, “O Mundo em que Vivemos” – pensando hoje, uma das coisas mais importante para mim e meus irmãos abandonarem explicações mais místico-religiosas (afeitas a minha mãe devota), para se enfronhar na busca de conhecimentos menos dogmáticos e mais práticos.

Os “britanófilos”, como o Rafa “Bala” Amorim e Alexandre Fox poderão se deliciar com fotos interessantíssimas de locais que fazem referência a vida, aos estudos e homenagens a Darwin em Londres, Downe, Cambrige, Shrewsbury etc.

http://www.aboutdarwin.com/pictures/pictures_01.html

Há, como sempre digo, muita fascinação na abordagem científica. Entretanto, também há um apelo para buscarmos avidamente o “sobrenatural”, carentes que somos, enquanto espécie humana, pela atávica sensação de solidão cósmica e fragilidade existencial. Como mariposas, frequentemente nos chocamos contra a luz sedutora, às vezes matando para sempre esta nesga cognitiva que resiste ao entorpecimento aquecido pela promessas de companhia e proteção transcendentais. A biografia dolorida de Darwin adulto demonstra muito bem o que é uma lenta saída do útero mágico para o frio polar da “vida como ela é”. Graças que o caminho já foi feito e podemos dispensar o drama de matar deus em nossos corações.


*Os materiais e referências usados no “AboutDarwin.com” envolvem instituições como a Royal Society (Londres) e a Cambridge University. Sobre quem desenvolveu o site, está dito: “This website was created by me, David Leff. I am an amateur scholar of the History of Science, with a focus on scientific developments during the Victorian era (around 1835 to 1900).” Anoto isso para reforçar o que diz Oliver Sacks em "Diário de Oaxaca": muitas vezes os "amantes da ciência", por seu interesse genuíno, conseguem ir mais longe na busca de "revelações". Sasks manifesta o seu "mal-estar em relação aos meios oficiais e ultracompetitivos da ciência contemporânea", que deturpam muito o sentido da busca do conhecimento, tornando um ambiente de vaidades cretinas, dinheiro, corrupções e facadas nas costas.

**Os viajantes do século XIX são mesmo fascinantes. Diários de expedições no geral são muito bons – a gente vai viajando junto! Darwin teria se inspirado em Humboldt. Aqui mesmo em Santa Cruz, tivemos a visita de um viajante, menos famoso mundialmente – embora fosse amigo de Humboldt –, mas igualmente observador, que registrou coisas muito interessantes no passado da região: Avé-Lallemant, médico, também alemão, e que foi financiado diretamente por D. Pedro II em suas excursões pelo Brasil (morou no Rio de Janeiro).

Aliás, as narrativas de Lallemant (“Viagem pela Província do Rio Grande do Sul”, 1858) serviram de base para um romance que se passa aqui no município: “A Valsa da Medusa”, de Valesca de Assis (que vem a ser esposa do escritor mais afamado, Luiz Antônio de Assis Brasil, notável por seus romance históricos sobre o RS).

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Revistas interessantes - comportamento animal

Entre várias, duas revistas brasileiras bastante lidas publicam seguidamente matérias sobre o comportamento animal. Falo da Superinteressante e a National Geographic Brasil, ambas da editora Abril.

A Super (como é conhecida) possui um arquivo temático (Canais, no site da revista) “Mundo Animal” (não vi, mas bem que os humanos, enquanto uma das espécies de grandes primatas – “o macaco nu”, como disse o zoólogo Desmond Morris já no título do seu best-seller). Vale uma boa olhada:

http://super.abril.com.br/mundo-animal/

Da NG vou destacar uma reportagem muito bacana (textos, gráficos, fotos), na edição de agosto de 2013, muito bacana sobre leões que vivem no Parque Nacional do Serengeti, na Tanzânia.

Nas páginas 56/57 é dito assim:

“Os tigres são solitários. Idem para as onças-pardas. Leopardos não têm interesse em se associar com outros de sua espécie. O leão é o único felino social. Vive em coalizões cujos tamanho e dinâmica são definidos por um intricado equilíbrio de vantagens e desvantagens evolutivas.

E por que o comportamento social, inexistente em outros felinos, adquiriu tanta importância para o leão? É uma adaptação necessária para a caça de presas de grande porte, como os gnus? Facilita a proteção dos filhotes pequenos? Surgiu das características circunstanciais das disputas por territórios? À medida que se delinearam os detalhes da sociabilidade leonina, sobretudo nos últimos 40 anos, muitas das revelações cruciais vieram de estudos realizados no Serengeti.”

E as perguntas acima não caberiam também para os humanos? Por que vivemos em grupo? Como as relações entre os indivíduos se dá numa perspectiva zoológica, digamos assim, que considere existir um longuíssimo processo evolutivo, do qual alguns supõe termos escapado ou, mais radical ainda, estarmos alheios, como “imagem e semelhança” de um deus criador, que montou o mundo com tudo pronto em uma semana e nos deu tudo para dominarmos para todo e sempre?

Há os que, não acreditando em criacionismo, acreditam numa independência total do ser humano das contingências biológicas, tendo nós superado totalmente outros seres do ecossistema planetário, caso dos nossos “primos” gorilas, chipanzés e bonobos. De alguma forma, “endeusam” o ser humano, mesmo que sejam “ateus de carteirinha” (ou “materialistas”). Cara como Steven Pinker teriam muito a contestar com argumentos poderosos...

Certo, mas voltemos à matéria da NG. Segue o link:

http://viajeaqui.abril.com.br/materias/leao-serengeti-tanzania-africa-felinos-sociais

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A importância relativa dos nossos amados livros

Para não esquecer que há coisas bem anteriores, muito mais fundamentais para a existência humana do que a leitura:

Recebi de uma colega uma artigo que falava das novas tecnologia e hábitos de leitura, especialmente com a chegada da informática e de dispositivos como e-readers, palms e tablets. Muito bacana o texto (http://biblioo.info/o-livro-e-o-leitor/). Nos coloca uma linha histórica. E aí a gente percebe que poderemos nos sentir nostálgicos em relação (por um lado) as brochuras e (por outro) os e-readers, assim como monges copistas ou filósofos antigos provavelmente sentiram-se nostálgicos em relação aos seus amados manuscritos (por um lado) e (por outro) o novo formato e popularização das "plataformas de leitura" derivadas da impressão inaugurada por Gutenberg no século XIII...

Viajando mais um pouco: E se a gente pensar na história do ser humano, ou do Homo sapiens, que vai aos milhões de anos se considerarmos a evolução da espécie desde o Australopitecus (poderíamos retroceder ainda mais), se pode dizer que a relação com materiais escritos ou, mesmo, os desenhos nas paredes de cavernas, vamos até uns 30 mil anos. Considerando a escrita em placas de cerâmica, madeira, couro, papiros e papel, aí é algo ainda mais curto: talvez sete mil anos atrás. Há 10 mil anos a agricultura e a domesticação de animais iniciou pra valer, segundo os estudos arqueológicos. Até ali, fomos, por 200 mil anos, povos caçadores-coletores, usando-se de nossa estrutura cérebro-corporal para sobreviver e desenvolver culturas -- línguas, normas, tecnologias para a sobrevivência/convívio. Ou seja, numa escala maior de tempo, a nossa relação com a leitura – um subproduto, provavelmente, derivado do potencial humano para a localização e decifração de padrões, fundamental para nossa sobrevivência física enquanto um ramo dos primatas –, é um piscar de olhos...

Pois é. Parece muito tempo, mas livros são um objeto muuuuito novo na trajetória humana. Por longo, longo, longuíssimo período nos viramos com a oralidade, com a transmissão boca-a-boca (literalmente) e por outros artefatos para nos comunicar, registar e expressar nossas vidas. Na escala de tempo, biológica e socialmente falando, enquanto humanos, fomos 99% do tempo ágrafos... E de onde estamos, em meio a estantes enormes de pesados livros e a infinidade espantosa de textos acessíveis via internet, não é fácil nem tranquilo perceber objetivamente a importância relativamente pequena da escrita, da leitura, e, consequentemente, dos nossos amados/sagrados livros... Entretanto, com certeza a escrita é algo revolucionário, como bem disse Carl Sagan ("O mundo assombrado por demônios") e uma habilidade indispensável para sobreviver no mundo contemporâneo. Mas até o seu surgimento da escrita, inúmeras revoluções evolutivas fundamentais ocorreram bem antes, sem as quais, estaríamos ainda mais próximos dos nossos primos chipanzés e bonobos – seres cuja inteligência, capacidade de expressão e organização social não são nada desprezíveis; na verdade, se assemelham muitos conosco, já que compartilhamos a mesma origem animal; mínimos detalhes em nossa composição genética nos alçaram, no processo evolutivo, a uma condição sui generis entre os primatas.

Tudo isso, me desculpem a xaropada, deriva especialmente de, vejam... LIVROS! que estou lendo aos poucos, até porque têm desajustado várias de minhas "tradicionais" concepções. É o caso de "Eu, primata", de Frans Wall, e "O macaco nu", de Desmond Morris, ambos zoólogos e especialista renomadíssimos em etologia, que, simplificadamente, é o estudo do comportamento animal. Entram neste time outros caras, caso do "formigólogo" Edward Osborne (que pode ser considerado fundador da sociobiologia) e o psicólogo e linguista Steven Pinker, além de caras como o jornalista Cristopher Hitchens e outro biólogo, o geneticista - enfant terrible das religiões - Richard Dawkins.

***Sobre o termo "enfant...", a Wikipédia registra que " Enfant terrible ("criança terrível") é um termo francês para designar uma criança que é muito inocente ao ponto de dizer coisas embaraçosas aos adultos, em especial aos pais. O Webster's Dictionary também define um enfant terrible como uma pessoa que geralmente tem sucesso e que é fortemente não ortodoxo, inovador ou de vanguarda.

Somos animais - não mais nem menos do que animais...

“Acima de tudo, deve-se salientar que não há nada de insultante em olhar as pessoas como animais. Afinal de contas, SOMOS animais. O Homo sapiens é uma espécie de primata, um fenômeno biológico dominado por regras biológicas, como qualquer outra espécie. A natureza humana não é mais do que um tipo particular de natureza animal. De acordo, a esp...écie humana é um animal extraordinário; mas todas as outras espécies também são animais extraordinários, cada uma à sua maneira, e o observador científico de homens poderá trazer muitas revelações novas ao estudo dos assuntos humanos se conseguir conservar essa atitude básica de humildade evolucionária.”

Aí está, no parágrafo final da introdução de “Manwatching – A field guide to human behaviour” (traduzido no Brasil como “Você – Um estudo objetivo do comportamento humano” ”, editora Círculo do Livro S.A., São Paulo, 1977), do zoólogo britânico Desmond Morris (autor do mais afamado “O Macaco Nu”). Uma perspectiva que tem me empolgado. Primeiro, porque nos “baixa a bola” – não somos mais (nem menos) do que animais. Uma perspectiva zoológiaca ao invés de antropológica (e/ou antropocêntrica) – ou seja, nós, animais, vertebrados, mamíferos, primatas, nos vendo como... animais, e não como algum ser que está acima biologia, “O HOMEM” – em letras maiúsculas e entre aspas, para ressaltar nossa auto-magnificência –, como se estivéssemos fora da condição de ser biológico; como se fôssemos anjos, querubins ou outras figuras míticas – seres que viveriam pairando além de toda a história astrofísica e do longíssimo e complexo processo evolutivo na Terra, o qual Charles Darwin começou a esboçar, reforçando-se cada vez mais pelos conhecimentos trazidos pela arqueologia, paleontologia, genética, das profundezas das células e, até, das partículas subatômicas.

Isso poderia também nos falar dos limites de nossos poderes – o poder de pensar, inclusive. Talvez aí esteja porque imaginamos ETs como humanoides ou, ao menos, na forma de algum tipo de animal. Simplesmente não temos capacidades cognitivas para lidar com outras possibilidades de vida ou inteligência. Apenas montamos o mundo como nossos cérebros conseguem operar – assim como uma criança de cinco anos, em 1970 (é o meu caso), imaginava que as vozes e músicas do rádio eram produzidas por minúsculas pessoas dentro do aparelho receptor (aquela caixinha mágica, com botões, ponteiro, numerações, luzes etc.)... São os limites de compreensão, de elaboração mental própria da infância – limites que continuam existindo, em outras medidas e formas, mesmo agora, quando já somos adultos.

Não é nada fácil vencer esse antropocentrismo, essa autoidolatria humana, esse sentido de que somos o centro de tudo, do universo. Difícil, talvez, porque está na nossa própria base genética, como um mecanismo de preservação e reprodução da espécie humana.

Eis o que me suscitou a citação acima.

Fala Frans!

Citações

De “Eu, primata: por que somos como somos”, de Frans de Waal – zoólogo holandês, radicado nos EUA, dá aulas na no Departamento de Psicologia da Universidade Emory e é pesquisador no Centro Nacional Yerkes de Pesquisa sobre Primatas em Atlanta:
I

O antigo provérbio romano Homo homini lupus - “o homem é o lobo do homem” - capta essa visão associal que ainda hoje inspira o direito, a economia e a ciência política. O problema não é apenas que esse ditado nos reporesenta erroneamente; ele também insulta um dos mais gregários e leias cooperadores do reino animal. Tão leal, que nossos ancestrais sabiamente o domesticaram. Os lobos sobr...evivem derrubando presas maiores do que eles, animais como renas e alces, e fazem isso com trabalho em equipe. Ao voltarem da caça, regurgitam a carne para as mães lactantes, os filhos e às vezes os velhos e doentes que ficaram para trás. Como as torcidas cantante do futebol., reforçam a união da matilha uivando em conjunto antes e depois da caçada. A competição existe, mas os lobos não podem se dar ao luxo de permitir que ela siga o seu curso. Lealdade e confiança vêm primeiro. Comportamento que solapam o alicerce da cooperação são reprimidos para impedir a erosão da harmonia, a base da sobrevivência. Um lobo que permitisse a prevalência de seus limitados interesses individuais logo se veria sozinho caçando ratos.

(p.266)

II

Cada época oferece à humanidade sua própria distinção. Nós nos consideramos especiais e estamos sempre em busca da confirmação dessa singularidade. Talvez a primeira delas tenha sido a definição de homem, por Platão, como a única criatura sem pelos que anda com duas pernas. Isso pareceu absolutamente correto até que Diógenes soltou uma galinha depenada no salão da conferência e ironizou:... “Eis o homem de Platão”. Dali por diante, a definição de Platão inclui “e que tem unhas largas”.

Muito tempo depois, o fabrico de ferramentas foi considerado tão especial que ensejou a publicação de um livro intitulado Man, the tool-maker [Homem, o fabricante de ferramentas]. Essa definição perdurou até a descoberta de chimpanzés selvagens que faziam esponjas com folhas mascadas ou desfolhavam um ramo de árvore para usar com varas. Corvos já foram vistos curvando um pedaço de arame para fazer gancho e pescar a comida dentro de garrafas. Lá se foi o “homem, o fabricante de ferramentas”. A próxima candidata foi a linguagem, inicialmente definida como comunicação simbólica. Mas, quando os linguistas tiveram notícia de que grandes primatas não humanos possuem habilidades de linguagem de sinais, perceberam que o único modo de manter fora esses intrusos era abandonar a definição de comunicação simbólica e enfatizar a sintaxe. O lugar especial da humanidade é marcado por definições abandonadas e traves de gol móveis.

(p.222)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Procisão: a fé precisa ser cultivada para não morrer por sua natural fragilidade

“Cultivar a fé” parece ser uma necessidade dos crentes e das instituições que dependem da crendice para se justificarem e justificarem os seus custos materiais e morais. Ainda mais uma fé específica, como em seres e poderes lendários, mágicos, sobrenaturais, característicos de religiões – ou nos adeptos que levam os escritos ao pé da letra – como o cristianismo, o hinduísmo e outros “ismos”; precisam competir num mercado cada vez maior de igrejas e assemelhados.

Se não se cultiva a fé, ela não brota e perece, posto que não é totalmente “natural”, “ecossistêmica”, “nativa” – é quase um ser cheio de enxertos ou, por assim dizer, geneticamente modificados, tornando-se como esses cães "puros", cujos antepassados, os lobos, ficaram tão distantes ou distorcidos no processo evolutivo – se ressaltando artificialmente determinadas características (orelhas longas, pelagem curta etc.) em poucas gerações (por cruzamento às vezes entre aparentados imediatos) –, que ficam sucetíveis a várias doenças, atrofiamentos, entre outras disfunções do corpo.

Presumo que forja-se a fé a partir ou fundamentado em uma tendência natural do ser humano para aderir a ideias, a imaginações, a idealizações que aliviem a nossa consciência humana da finitude e da eminência da extinção a qualquer momento, visto a hostilidade do meio ambiente, as fragilidades físicas que temos, ainda mais considerando priscas eras, onde os humanos eram muito mais um predado do que predador. Afora a consideração sobre a nossa capacidade perceptiva, sentimental e intelectual limitada, limitando o entendimento da vastidão e complexidade que nos cerca. Dessas escuridão e medo, acredito aflorar as religiões mais sombrias (outras, que chamaria de luzidias, podem derivar da observação da incomensuralidade do mundo, da beleza incognoscível das coisas e por aí, surgindo epifanias canalizadas para um “culto à vida”).

Assim, demonstrações de fé em coletividade, como as procissões, são meios de “dar um up”, revigorar aquilo que é uma crença e pode a qualquer momento esmorecer – visto as inúmeras contradições, as inúmeras perguntas sem resposta (ou com resposta francamente débeis) e os apelos para outras formas de se pensar a vida que se usam de outros cabedais e, mesmo, as formas não-religiosas de conceber – e viver – a vida, sem necessidade de divindades ou algo que as valham.

Cada vez me choca mais ver uma multidão entoando cânticos e palavras de ordem, empunhando imagens, estátuas, cruzes e outros adereços simbólicos, tudo lastreado em tradições que se erguem em suposições sem comprovação ou que se desmontam sob qualquer análise mais racional; que não recorra a velha “é uma questão de fé”, encerrando-se qualquer argumentação, qualquer questionamento desse “pilar” (Alguns dizem: “Eu acredito porque acredito, meus avós, meus pais acreditavam e pronto!”). Entretanto, em meio ao pântano, há positividades. Admiro a compaixão cristã e a busca de um vida virtuosa, desapegada. Infelizmente, muitas vezes isso não passa de um idealismo ou de uma capa, encobrindo o seu contrário: a guerra, a imposição, a discriminação, a ganância, enfim, a violência em nome Jesus e outros avatares.

Homem, um animal (Freud fala de Darwin)

Na apresentação da tradução brasileira (editora Hemus, 1974) de “A Origem do Homem e a Seleção Sexual”, de Charles Darwin (autor, como vocês sabem, do mais afamado e anterior “A Origem das Espécies”, publicado originalmente em 1859), é feita uma citação de Sigmund Freud, escrita em 1917, a respeito do impacto das pesquisas do naturalista britânico:

“No de...curso da civilização, o homem adquiriu uma posição de predomínio sobre as criaturas companheiras do reino animal; mas, não contente com tal supremacia, pôs-se a cavar um abismo entre a sua natureza e a dos animais. Negou-lhes a posse da razão, atribuiu a si mesmo uma alma imortal e pretendeu arrogar-se afoitamente uma origem divina; isto lhe permitiu romper o elo de comunhão entre si e o reino animal... Todos sabem muito bem que faz pouco mais de meio século as pesquisas de Charles Darwin e dos seus colaboradores e precursores puseram fim a esta presunção do homem. O homem não é um ser diferente dos animais ou superior a eles; ele próprio descende dos animais e possui afinidades mais estreita a alguma espécie e menos a outra. Os progressos que o homem realizou não conseguiram anular as provas da sua afinidade com essas espécies, tanto do ponto de vista da estrutura física como também das disposições psíquicas. Isto representa um golpe ulterior deferido contra o seu narcisismo, o ‘golpe biológico’.”


Complementos avulsos

*Óbvio que o termo “homem” se refere a espécie humana, os humanos de ambos os gêneros. No “machocentrismo” ainda em vigor, o gênero masculino define todas as coisas...

**O que liga Deus à humildade, como alega um amigo, a partir do que ele entendeu do meu comentário? Quase sempre, essa palavra designa um ser antropomórfico, tipo um velho barbudo suscetível a ira, ao qual se deve amar sobre todas as coisas ou morrer no inferno... Se concebes Deus como aquilo que é incognoscível pela mente animal humana, aí para mim está tudo bem; poderia chamar isso também de “ o grande mistério”, “o intransponível” etc. O mais, entendo como especulações, inclusive as científicas; nesse nível, tudo são tentativas de entendimento; o problema é definir que “com toda certeza” existe tal e tal coisa no “além”; que as coisas são assim e assado, frito, cozido, ou seja, pontificações, seja aquelas vindas das igrejas, do espiritismo, do candomblé, do budismo tibetabno, da Seicho-No-Ie, da física quântica, da exobiologia etc.

***Eu acho que ler as obras originais é muito bom, porque ali está o pensamento do cara em estado bruto. Comentadores, biógrafos podem ser um baita auxílio no entendimento. Lendo Darwin, se vê muito isso. É um escrito datado, cheio dos rebusques da época (mesmo que seja uma tradução). Mas é um esforço danado para transmitir, por inúmeros exemplos e referências (algumas, até, jocosas [pra usar um termo arcaico]), uma ideia que hoje pode parecer “evidente”. Entretanto, não dá para esquecer: há muita gente que desconhece ou rejeita o evolucionismo, mantendo-se aderido àquela ideia bíblica do criacionismo, ou seja, levam ao pé da letra o que são histórias lendárias e mitos da Idade do Bronze... E em nome disso alguns se tornam fundamentalistas, irados e, no ápice, genocidas.

Demos graças...

Demos graças, sim... às bactérias!

Mais do que qualquer deidade abstrata, criadas e desenvolvidas nas diversas tradições culturais da breve história humana, caso do deus único do cristianismo, judaísmo e islamismo, talvez uma das nossas grandes reverências deveriam ser não para tais “entes transcendentais”, mas para as tão terrenas bactérias!

No caso, nossa reverência deveria ser às bactérias presentes em plantas que fixam o nitrogênio. No livro “Diário de Oaxaca”, de Oliver Sacks, o afamado neurologista, professor na Universidade de Columbia, EUA, autor de várias obras de divulgação científica, diz o seguinte:

“Os animais, os vegetais superiores e até as ceratofiláceas [‘plantas aquáticas de folhas finas e muito divididas’...] podem se achar superiores, mas em última análise são todos dependentes de aproximadamente cem espécies de bactérias, pois só elas conhecem o segredo de fixar nitrogênio do ar para que seja possível construir proteínas”. (p. 48)

Ele explica:

“Somos banhados em nitrogênio; quatro quintos da atmosfera compõem-se desse elemento. Todos nós, animais, plantas e até fungos precisamos produzir ácidos nucleicos e aminoácidos, peptídeos e proteínas. Mas nenhum organismo além das bactérias é capaz de usá-lo diretamente. Por isso, somos todos dependentes dessas bactérias fixadoras de nitrogênio para converter o nitrogênio atmosférico em forma de nitrogênio que possamos usar. Sem isso, a vida na Terra nunca teria ido muito longe.” (p.50)

A observação sobre a importância de determinadas plantas serem mantidas no solo – permitindo a continuidade de cultivos, ou seja, a existência da agricultura e, consequentemente, da pecuária –, é antiga. Mas saber-se o porquê disso é relativamente recente:

“Só no século XIX percebeu-se que os estranhos nódulos presentes em raízes de muitos legumes eram cheios de bactérias, e que estas, com suas enzimas especiais, podiam fixar o nitrogênio atmosférico e disponibilizá-lo para a planta. Quando por fim essas plantas se decompõem, os compostos de nitrogênio, agora assimiláveis, podem ser liberados no solo [permitindo o desenvolvimento dos vegetais, que por suas vez, alimentam os demais seres dentro da cadeia alimentar]. (p.51)

A dádiva da vida, da vida humana em específico, tem a ver com um longuíssimo e complexíssimo processo evolutivo do planeta. E as bactérias têm um peso fundamental, já que são seres indispensáveis a vida humana. Assim, “elas” mereceriam muito do nosso reconhecimento. Entretanto, quão pouca consideração para fatos concretos, e quão grande devoção para figuras do reino do fantástico e do incorpóreo.

Um “culto às bactérias” ao menos teria uma autenticidade comprovada: são essas criaturas que permitem a nossa existência; não se necessita de fé para terem algum efeito; basta a observação de que sem a sua “intervenção”, seres humanos, eu, tu, nós jamais teríamos existência... Amém [“assim seja”]!

Ilustração: "Nostoc Cyanobacteria, with Heterocysts Important in Nitrogen Fixation"