Para não esquecer que há coisas bem anteriores, muito mais fundamentais para a existência humana do que a leitura:
Recebi de uma colega uma artigo que falava das novas tecnologia e hábitos de leitura, especialmente com a chegada da informática e de dispositivos como e-readers, palms e tablets. Muito bacana o texto (http://biblioo.info/o-livro-e-o-leitor/). Nos coloca uma linha histórica. E aí a gente percebe que poderemos nos sentir nostálgicos em relação (por um lado) as brochuras e (por outro) os e-readers, assim como monges copistas ou filósofos antigos provavelmente sentiram-se nostálgicos em relação aos seus amados manuscritos (por um lado) e (por outro) o novo formato e popularização das "plataformas de leitura" derivadas da impressão inaugurada por Gutenberg no século XIII...
Viajando mais um pouco: E se a gente pensar na história do ser humano, ou do Homo sapiens, que vai aos milhões de anos se considerarmos a evolução da espécie desde o Australopitecus (poderíamos retroceder ainda mais), se pode dizer que a relação com materiais escritos ou, mesmo, os desenhos nas paredes de cavernas, vamos até uns 30 mil anos. Considerando a escrita em placas de cerâmica, madeira, couro, papiros e papel, aí é algo ainda mais curto: talvez sete mil anos atrás. Há 10 mil anos a agricultura e a domesticação de animais iniciou pra valer, segundo os estudos arqueológicos. Até ali, fomos, por 200 mil anos, povos caçadores-coletores, usando-se de nossa estrutura cérebro-corporal para sobreviver e desenvolver culturas -- línguas, normas, tecnologias para a sobrevivência/convívio. Ou seja, numa escala maior de tempo, a nossa relação com a leitura – um subproduto, provavelmente, derivado do potencial humano para a localização e decifração de padrões, fundamental para nossa sobrevivência física enquanto um ramo dos primatas –, é um piscar de olhos...
Pois é. Parece muito tempo, mas livros são um objeto muuuuito novo na trajetória humana. Por longo, longo, longuíssimo período nos viramos com a oralidade, com a transmissão boca-a-boca (literalmente) e por outros artefatos para nos comunicar, registar e expressar nossas vidas. Na escala de tempo, biológica e socialmente falando, enquanto humanos, fomos 99% do tempo ágrafos... E de onde estamos, em meio a estantes enormes de pesados livros e a infinidade espantosa de textos acessíveis via internet, não é fácil nem tranquilo perceber objetivamente a importância relativamente pequena da escrita, da leitura, e, consequentemente, dos nossos amados/sagrados livros... Entretanto, com certeza a escrita é algo revolucionário, como bem disse Carl Sagan ("O mundo assombrado por demônios") e uma habilidade indispensável para sobreviver no mundo contemporâneo. Mas até o seu surgimento da escrita, inúmeras revoluções evolutivas fundamentais ocorreram bem antes, sem as quais, estaríamos ainda mais próximos dos nossos primos chipanzés e bonobos – seres cuja inteligência, capacidade de expressão e organização social não são nada desprezíveis; na verdade, se assemelham muitos conosco, já que compartilhamos a mesma origem animal; mínimos detalhes em nossa composição genética nos alçaram, no processo evolutivo, a uma condição sui generis entre os primatas.
Tudo isso, me desculpem a xaropada, deriva especialmente de, vejam... LIVROS! que estou lendo aos poucos, até porque têm desajustado várias de minhas "tradicionais" concepções. É o caso de "Eu, primata", de Frans Wall, e "O macaco nu", de Desmond Morris, ambos zoólogos e especialista renomadíssimos em etologia, que, simplificadamente, é o estudo do comportamento animal. Entram neste time outros caras, caso do "formigólogo" Edward Osborne (que pode ser considerado fundador da sociobiologia) e o psicólogo e linguista Steven Pinker, além de caras como o jornalista Cristopher Hitchens e outro biólogo, o geneticista - enfant terrible das religiões - Richard Dawkins.
***Sobre o termo "enfant...", a Wikipédia registra que " Enfant terrible ("criança terrível") é um termo francês para designar uma criança que é muito inocente ao ponto de dizer coisas embaraçosas aos adultos, em especial aos pais. O Webster's Dictionary também define um enfant terrible como uma pessoa que geralmente tem sucesso e que é fortemente não ortodoxo, inovador ou de vanguarda.
Espaço para informações, comentários, opiniões, matérias e outros textos e imagens referentes ou que possam se relacionar com a sociobiologia e outros temas e estudos "correlatos" - psicologia evolutiva, etologia, neurociência, antropologia etc. Direcionado para quem tem curiosidade e está iniciando na busca de mais conhecimentos na área, que não está isenta de polêmicas, mas também abre portas fascinantes para compreensão do ser humano e o mundo onde vivemos.
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