quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Procisão: a fé precisa ser cultivada para não morrer por sua natural fragilidade

“Cultivar a fé” parece ser uma necessidade dos crentes e das instituições que dependem da crendice para se justificarem e justificarem os seus custos materiais e morais. Ainda mais uma fé específica, como em seres e poderes lendários, mágicos, sobrenaturais, característicos de religiões – ou nos adeptos que levam os escritos ao pé da letra – como o cristianismo, o hinduísmo e outros “ismos”; precisam competir num mercado cada vez maior de igrejas e assemelhados.

Se não se cultiva a fé, ela não brota e perece, posto que não é totalmente “natural”, “ecossistêmica”, “nativa” – é quase um ser cheio de enxertos ou, por assim dizer, geneticamente modificados, tornando-se como esses cães "puros", cujos antepassados, os lobos, ficaram tão distantes ou distorcidos no processo evolutivo – se ressaltando artificialmente determinadas características (orelhas longas, pelagem curta etc.) em poucas gerações (por cruzamento às vezes entre aparentados imediatos) –, que ficam sucetíveis a várias doenças, atrofiamentos, entre outras disfunções do corpo.

Presumo que forja-se a fé a partir ou fundamentado em uma tendência natural do ser humano para aderir a ideias, a imaginações, a idealizações que aliviem a nossa consciência humana da finitude e da eminência da extinção a qualquer momento, visto a hostilidade do meio ambiente, as fragilidades físicas que temos, ainda mais considerando priscas eras, onde os humanos eram muito mais um predado do que predador. Afora a consideração sobre a nossa capacidade perceptiva, sentimental e intelectual limitada, limitando o entendimento da vastidão e complexidade que nos cerca. Dessas escuridão e medo, acredito aflorar as religiões mais sombrias (outras, que chamaria de luzidias, podem derivar da observação da incomensuralidade do mundo, da beleza incognoscível das coisas e por aí, surgindo epifanias canalizadas para um “culto à vida”).

Assim, demonstrações de fé em coletividade, como as procissões, são meios de “dar um up”, revigorar aquilo que é uma crença e pode a qualquer momento esmorecer – visto as inúmeras contradições, as inúmeras perguntas sem resposta (ou com resposta francamente débeis) e os apelos para outras formas de se pensar a vida que se usam de outros cabedais e, mesmo, as formas não-religiosas de conceber – e viver – a vida, sem necessidade de divindades ou algo que as valham.

Cada vez me choca mais ver uma multidão entoando cânticos e palavras de ordem, empunhando imagens, estátuas, cruzes e outros adereços simbólicos, tudo lastreado em tradições que se erguem em suposições sem comprovação ou que se desmontam sob qualquer análise mais racional; que não recorra a velha “é uma questão de fé”, encerrando-se qualquer argumentação, qualquer questionamento desse “pilar” (Alguns dizem: “Eu acredito porque acredito, meus avós, meus pais acreditavam e pronto!”). Entretanto, em meio ao pântano, há positividades. Admiro a compaixão cristã e a busca de um vida virtuosa, desapegada. Infelizmente, muitas vezes isso não passa de um idealismo ou de uma capa, encobrindo o seu contrário: a guerra, a imposição, a discriminação, a ganância, enfim, a violência em nome Jesus e outros avatares.

Homem, um animal (Freud fala de Darwin)

Na apresentação da tradução brasileira (editora Hemus, 1974) de “A Origem do Homem e a Seleção Sexual”, de Charles Darwin (autor, como vocês sabem, do mais afamado e anterior “A Origem das Espécies”, publicado originalmente em 1859), é feita uma citação de Sigmund Freud, escrita em 1917, a respeito do impacto das pesquisas do naturalista britânico:

“No de...curso da civilização, o homem adquiriu uma posição de predomínio sobre as criaturas companheiras do reino animal; mas, não contente com tal supremacia, pôs-se a cavar um abismo entre a sua natureza e a dos animais. Negou-lhes a posse da razão, atribuiu a si mesmo uma alma imortal e pretendeu arrogar-se afoitamente uma origem divina; isto lhe permitiu romper o elo de comunhão entre si e o reino animal... Todos sabem muito bem que faz pouco mais de meio século as pesquisas de Charles Darwin e dos seus colaboradores e precursores puseram fim a esta presunção do homem. O homem não é um ser diferente dos animais ou superior a eles; ele próprio descende dos animais e possui afinidades mais estreita a alguma espécie e menos a outra. Os progressos que o homem realizou não conseguiram anular as provas da sua afinidade com essas espécies, tanto do ponto de vista da estrutura física como também das disposições psíquicas. Isto representa um golpe ulterior deferido contra o seu narcisismo, o ‘golpe biológico’.”


Complementos avulsos

*Óbvio que o termo “homem” se refere a espécie humana, os humanos de ambos os gêneros. No “machocentrismo” ainda em vigor, o gênero masculino define todas as coisas...

**O que liga Deus à humildade, como alega um amigo, a partir do que ele entendeu do meu comentário? Quase sempre, essa palavra designa um ser antropomórfico, tipo um velho barbudo suscetível a ira, ao qual se deve amar sobre todas as coisas ou morrer no inferno... Se concebes Deus como aquilo que é incognoscível pela mente animal humana, aí para mim está tudo bem; poderia chamar isso também de “ o grande mistério”, “o intransponível” etc. O mais, entendo como especulações, inclusive as científicas; nesse nível, tudo são tentativas de entendimento; o problema é definir que “com toda certeza” existe tal e tal coisa no “além”; que as coisas são assim e assado, frito, cozido, ou seja, pontificações, seja aquelas vindas das igrejas, do espiritismo, do candomblé, do budismo tibetabno, da Seicho-No-Ie, da física quântica, da exobiologia etc.

***Eu acho que ler as obras originais é muito bom, porque ali está o pensamento do cara em estado bruto. Comentadores, biógrafos podem ser um baita auxílio no entendimento. Lendo Darwin, se vê muito isso. É um escrito datado, cheio dos rebusques da época (mesmo que seja uma tradução). Mas é um esforço danado para transmitir, por inúmeros exemplos e referências (algumas, até, jocosas [pra usar um termo arcaico]), uma ideia que hoje pode parecer “evidente”. Entretanto, não dá para esquecer: há muita gente que desconhece ou rejeita o evolucionismo, mantendo-se aderido àquela ideia bíblica do criacionismo, ou seja, levam ao pé da letra o que são histórias lendárias e mitos da Idade do Bronze... E em nome disso alguns se tornam fundamentalistas, irados e, no ápice, genocidas.

Demos graças...

Demos graças, sim... às bactérias!

Mais do que qualquer deidade abstrata, criadas e desenvolvidas nas diversas tradições culturais da breve história humana, caso do deus único do cristianismo, judaísmo e islamismo, talvez uma das nossas grandes reverências deveriam ser não para tais “entes transcendentais”, mas para as tão terrenas bactérias!

No caso, nossa reverência deveria ser às bactérias presentes em plantas que fixam o nitrogênio. No livro “Diário de Oaxaca”, de Oliver Sacks, o afamado neurologista, professor na Universidade de Columbia, EUA, autor de várias obras de divulgação científica, diz o seguinte:

“Os animais, os vegetais superiores e até as ceratofiláceas [‘plantas aquáticas de folhas finas e muito divididas’...] podem se achar superiores, mas em última análise são todos dependentes de aproximadamente cem espécies de bactérias, pois só elas conhecem o segredo de fixar nitrogênio do ar para que seja possível construir proteínas”. (p. 48)

Ele explica:

“Somos banhados em nitrogênio; quatro quintos da atmosfera compõem-se desse elemento. Todos nós, animais, plantas e até fungos precisamos produzir ácidos nucleicos e aminoácidos, peptídeos e proteínas. Mas nenhum organismo além das bactérias é capaz de usá-lo diretamente. Por isso, somos todos dependentes dessas bactérias fixadoras de nitrogênio para converter o nitrogênio atmosférico em forma de nitrogênio que possamos usar. Sem isso, a vida na Terra nunca teria ido muito longe.” (p.50)

A observação sobre a importância de determinadas plantas serem mantidas no solo – permitindo a continuidade de cultivos, ou seja, a existência da agricultura e, consequentemente, da pecuária –, é antiga. Mas saber-se o porquê disso é relativamente recente:

“Só no século XIX percebeu-se que os estranhos nódulos presentes em raízes de muitos legumes eram cheios de bactérias, e que estas, com suas enzimas especiais, podiam fixar o nitrogênio atmosférico e disponibilizá-lo para a planta. Quando por fim essas plantas se decompõem, os compostos de nitrogênio, agora assimiláveis, podem ser liberados no solo [permitindo o desenvolvimento dos vegetais, que por suas vez, alimentam os demais seres dentro da cadeia alimentar]. (p.51)

A dádiva da vida, da vida humana em específico, tem a ver com um longuíssimo e complexíssimo processo evolutivo do planeta. E as bactérias têm um peso fundamental, já que são seres indispensáveis a vida humana. Assim, “elas” mereceriam muito do nosso reconhecimento. Entretanto, quão pouca consideração para fatos concretos, e quão grande devoção para figuras do reino do fantástico e do incorpóreo.

Um “culto às bactérias” ao menos teria uma autenticidade comprovada: são essas criaturas que permitem a nossa existência; não se necessita de fé para terem algum efeito; basta a observação de que sem a sua “intervenção”, seres humanos, eu, tu, nós jamais teríamos existência... Amém [“assim seja”]!

Ilustração: "Nostoc Cyanobacteria, with Heterocysts Important in Nitrogen Fixation"

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Neurociência e Sociedade: com a palavra, António Damásio

Reproduzimos abaixo a reportagem sobre António Damásio, neurocientista português. O texto e materiais complementares se encontram no ótimo sítio da revista Ciência Hoje:

http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2013/07/o-cerebro-o-2018eu2019-e-a-sociedade

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O cérebro, o ‘eu’ e a sociedade

Em viagem ao Brasil, neurocientista português António Damásio aborda relações entre emoções, sentimentos e a construção de nossa vida social e política, além de comentar ‘explosão emocional’ vivida no país.

Por: Marcelo Garcia

Publicado em 08/07/2013

Há mais de 30 anos sem visitar o Brasil, o neurocientista português António Damásio se deixou levar pela saudade. Conhecido por seu trabalho que busca construir as pontes entre a neurociência e o estudo das emoções e dos sentimentos humanos, Damásio veio ao país para cumprir uma agenda com diversos encontros. Na última segunda-feira (01/07), apresentou palestra na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, na qual, além de discutir seus trabalhos mais recentes, avaliou o momento político conturbado pelo qual passa o Brasil, a partir das bases da neurociência.

Segundo o português, existe grande inter-relação entre o cérebro e a sociedade que construímos. Para ele, nossa consciência se molda a partir do ambiente, mas a pessoa social também é determinada pela biologia e por fenômenos que podem ser estudados pela neurobiologia, como as emoções. “É possível abordar temas como religião, justiça e política a partir da neurociência”, afirmou Damásio. “Não há nada de pouco respeitável nisso; apesar de sermos em grande parte biologia, não somos só biologia, mas também frutos da civilização, o que cria espaço para a individualização.”

“Se as situações de sofrimento não chegam a ser novas, a comunicação em rede dá um caráter muito diferente às mobilizações, temos algo de muito novo em tudo isso”Para o neurocientista, as manifestações no país têm relação com a ruptura de ‘valores sagrados’ instituídos ao longo do tempo nessa estrutura biológica e social, como saúde e respeito pela verdade. “Quando um grupo razoável de pessoas considera que há falta de cuidado com essas questões, podem surgir reações emocionais como as que vemos nas ruas, muitas vezes violentas”, avaliou.

Ele destaca a espontaneidade do movimento e a importância das redes digitais nesse processo. “Se as situações de sofrimento não chegam a ser novas, a comunicação em rede dá um caráter muito diferente às mobilizações, temos algo de muito novo em tudo isso”, avaliou. “No caso dos protestos do Brasil, há, sim, alguma relação com questões globais, mas as circunstâncias brasileiras também são muito particulares.”

Linguagem, emoções e complexidade

Na avaliação de Damásio, o estudo da neurociência começou ao revés, a partir da linguagem, uma capacidade surgida numa etapa avançada da evolução. Seu trabalho procura mapear processos cerebrais mais básicos: sentimentos e emoções. Para ele, as emoções – como nojo, medo, alegria, orgulho e admiração – são ‘exteriores’, lidas com facilidade e ligadas a programas de ação preestabelecidos, embora complexos; já os sentimentos têm maior grau de sofisticação biológica e ligação com o que ocorre no interior do corpo.

“As emoções são programadas pela educação que recebemos e pela biologia, tanto que podemos encontrar precursores em outros seres com vida social, embora sem a mesma complexidade”, explicou Damásio. “Já os sentimentos permitem, por exemplo, aprender e prever situações vantajosas, fundamental para a capacidade de planejar, além de abrir as portas da imaginação, do conhecimento, da consciência e de uma cultura complexa.”

As emoções são programadas pela educação e pela biologia, tanto que podemos encontrar precursores em outros seres com vida social. Já os sentimentos abrem as portas da imaginação, da consciência e de uma cultura complexaEm seu laboratório na Universidade do Sul da Califórnia, o português realiza trabalhos experimentais sobre neurociência cognitiva, em especial estudos na interface entre neurologia, fisiologia e psicologia. "Empregamos, por exemplo, mapeamentos de ressonância magnética e técnicas de eletrofisiologia, que avaliam a atividade elétrica cerebral, em seres humanos normais ou com lesões cerebrais, para testar uma larga gama de tópicos", explicou Damásio. "Também usamos métodos de neurobiologia celular e molecular para estudar a base celular dos sentimentos."

Seus estudos têm mostrado, por exemplo, que, embora o córtex cerebral (parte mais ‘complexa’ do órgão) seja a menina dos olhos da neurociência, a origem dos sentimentos pode estar em níveis mais ‘básicos’ – como destaca em seu último livro, de 2012. “Em pacientes que perderam partes específicas do cérebro, os sentimentos persistem, prova de que o córtex não é a base neural deles”, avaliou. “O ‘eu’ nasce em uma região mais primitiva, o tronco cerebral, que regula funções como frequência cardíaca e pressão arterial.” Para o português, no entanto, o córtex continua fundamental por ser a base para aspectos como raciocínio, o conhecimento e a memória.

Sobre nós e os outros

Segundo Damásio, um maior conhecimento das bases biológicas de emoções e sentimentos pode ter um enorme impacto na saúde pública. “A neurociência dos sentimentos e emoções pode vir a responder muitas das incógnitas que rodeiam os vícios, a depressão e outras síndromes psiquiátricas no que diz respeito às suas causas e contribuir para criar novos tratamentos e medicações”, avaliou.

Além disso, suas pesquisas podem ajudar a conhecer melhor os animais. Por exemplo, como o tronco cerebral é uma estrutura que compartilhamos com muitos deles, o neurocientista defende que o homem não é o único ser vivo com acesso aos sentimentos. “Nos níveis mais baixos, a emoção marca um início de consciência; já no nível mais alto, existe um ‘eu’ autobiográfico na mente, complexo, capaz de pensar sobre si e de criar uma linguagem elaborada”, explica. “Acho altamente improvável que os animais não tenham consciência, mas ela não deve ser tão complexa como a nossa.”

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012